
Surgimento do brega-funk: uma nova esperança de vida para os jovens das comunidades
Como o próprio nome indica, o brega-funk é a união de dois estilos musicais. A versão que domina em Pernambuco tem, em suas origens, uma influência direta do funk feito no Rio de Janeiro e do brega pop (romântico) produzido no Recife a partir de 2008. Nesse estilo, destacam-se nomes como Reginaldo Rossi, Amado Batista, Conde só Brega, Labaredas, Kitara. Com o passar dos anos o brega foi se flexibilizando em relação aos outros ritmos, sendo influenciado pelo funk carioca (ou “proibidão”) e começou a se distanciar do estilo romântico a partir do hit “Posição da Rã”.
O surgimento do brega-funk expressa questões sociais, econômicas e estéticas. O ritmo, essencialmente produzido por jovens das comunidades periféricas, aborda em suas músicas a objetificação da mulher (hoje em dia isso está mudando), a situação das periferias e as rivalidades existentes entre as comunidades. Foi de meados dos anos 1980 até o começo dos anos 2000 que, no Recife, os bailes funk dividiram-se entre lado A, lado B e lado C, que distinguia o seu público e disputava as comunidades uma das outras. Cada lado representava um grupo de uma comunidade e através da rivalidade que havia entre esses grupos, brigas eram comumente vistas. Dos bailes funk mais famosos, tinham-se o Baile do Clube dos Rodoviários, na Imbiribeira, e o Baile do Téo, em Casa Amarela.
Essa cena tinha suas relações com o tráfico de drogas, como descrito na reportagem: "O nascimento do bregafunk é a história de sobrevivência dos MCs do Recife" , produzida por GG Albuquerque, publicada em maio de 2018 no site Vice Brasil. De qualquer forma, aquele contexto garantia espaços para os MC’s se apresentarem.
De acordo com o pesquisador e jornalista GG Albuquerque, antes os bailes funks não davam retorno financeiro aos MC’s. Eles não conseguiam construir uma carreira duradoura, tudo o que ganhavam era considerado uma ajuda de custo. A solução que os MC’s encontraram foi começar a misturar o funk com o brega, já que o brega era consolidado e aceito. “O MC Leozinho, junto com o DJ Serginho, foi um dos primeiros a misturar o brega romântico com o funk como a música ‘Dois Corações’. Hoje, o brega romântico e o brega-funk ocupam o mesmo espaço”, pontuou GG.
Veja a videorreportagem:
Diante do que foi visto no vídeo, a pirataria foi um marco na vida dos artistas do brega-funk. “O MC Cego era um dos que fazia isso. Ele entregava para os carroceiros o seu CD com músicas novas e dizia para que eles as tocassem o dia todo. Cego via isso como parte da sua dinâmica empresarial, seu negócio”, afirma GG Albuquerque. “Hoje, ele é empresário e gerencia não só a sua carreira mas a de outros MC’s. É na informalidade que o brega-funk vai se construindo na cultura popular”, complementa GG.
Logo quando o WhatsApp se expandiu, muitos grupos compartilhavam músicas dos MC’s. Isso ajudou bastante na propagação do movimento. As rádios comunitárias também foram importantes para a disseminação das músicas, mas foi na internet que o brega-funk se ampliou, utilizando-se das mídias populares como o Fotolog, 4Shared e YouTube. Não somente o brega-funk, mas as músicas, em geral, se fortaleceram com o YouTube.
Segundo uma pesquisa do Tecmundo , realizada em dezembro de 2018, o Brega-funk foi o 5º gênero musical mais ouvido do ano na plataforma de streaming Spotify. Ele também foi destaque mundialmente, impulsionado principalmente pelo hit “Amor Falso”, de Aldair Playboy. Em 2017, a partir da Lei nº 16.044, o brega-funk foi considerado “expressão cultural de Pernambuco”, junto com o forró, maracatu, ciranda, mangue beat, dentre outros.
O YouTube é o grande articulador da cena musical do brega-funk. Por ser de fácil acesso, a plataforma foi muito importante para a consolidação do movimento. “Foi a partir dele que se formaram os canais originalmente pernambucanos como o de Thiago Gravações e das produtoras de clipes como a ProRec, onde vão migrar para o YouTube e se tornar canais de referência e de atualização. As pessoas vão lá só pra verem as novidades”, disse GG.
Tocha, um dos MC’s pioneiros nos sucessos do movimento, afirma que “no brega-funk, tudo é música. Se sua música está tocando, seu show vai ser top. Têm artistas que fizeram o ‘nome’ e não deixam de fazer shows, mesmo sem a música está tocando. E, também, têm artistas que precisam muito mais da música do que outros”, falou. “Se o MC que está começando agora não acertar nas músicas, ele vai cair no esquecimento porque ainda não tem o prestígio dentro desse grande mercado”, concluiu.
