
O impacto do brega-funk na economia
O impacto do brega-funk na economia pernambucana tem aumentado, fornecendo empregos e ampliando o volume de vendas. Em entrevista ao G1 Pernambuco, em novembro de 2018, para a matéria publicada por Wanessa Andrade: "Brega movimenta economia e gera empregos no Grande Recife" , Flávio Tenório, empresário da banda Torpedo e dono de casas de show, declarou: "Pernambuco respira o brega. A gente tem hoje uns 400 artistas que vivem do brega”. Portanto, trazem consigo a possibilidade de empregar diversas pessoas: técnicos de som, produtores, assistentes, etc. Além disso, muitos não esquecem suas origens e, depois da fama, voltam às suas comunidades para investir, como por exemplo, em algum projeto social.
O brega-funk tem uma força que muda a vida das pessoas e que consegue juntá-las. O carnaval é um desses grandes exemplos em que as pessoas se reúnem para dançar o passinho. A maioria dos cantores trabalhavam informalmente como feirantes, camelôs, e que hoje são artistas conhecidos, como é o caso do MC Cego. Antes, eles eram destinados a serem ambulantes e, com o brega-funk, eles têm possibilidades de participar de festas e de agregar na vivência cultural da cidade, podendo sonhar com outras realidades.

MC Cego. Foto: Cenário Filmes / Reprodução
Diante disso, como foi citado na videorreportagem "Surgimento do brega-funk: uma nova esperança de vida para os jovens das comunidades" , os artistas passam a ter uma carreira, deixam de ter um salário limitado e se tornam pessoas com melhores condições de vida. Não chegam a ser ricos, de fato, mas ganham uma vida decente, que geralmente é negada e passam a empregar pessoas próximas. Ele não é só o MC, ele se torna um empreendedor (informal, sem CNPJ), e contrata pessoas como editores de vídeo, fotógrafos, empresários (caso ele não seja o próprio). Ou seja, a partir dele é gerada uma economia.
“A gente não pode falar que é rico. Eu pelo menos sou realista. Todo mês eu tenho o meu dinheiro. Meu custo de vida da pra viver legal, bem. Sempre rola um show. Quando a música tá tocando são ainda mais shows que faço”, pontua o MC Tocha. “Tudo o que eu tenho é por conta do brega-funk. Antes eu era sustentado pelos meus pais, hoje é Tocha quem resolve tudo”, complementa.

MC Tocha. Foto: Cenário Filmes / Reprodução
Tocha foi o primeiro MC de brega-funk a tocar em um evento público no Carnaval do Recife. Toda a repercussão causada pelo gênero e seus expoentes, ainda assim, não é tão levada a sério quando comparada a outros gêneros e cantores. O brega-funk sofre, ainda, uma marginalização, sobretudo na grande mídia e de patrocinadores de grandes eventos, que só no ano passado levou para alguns palcos da folia, representantes do brega-funk.
Segundo Gleibson Roberto, o MC Case, os artistas de brega-funk nunca haviam tido uma enorme relevância a não ser em eventos públicos de grande porte que, hoje, estão inseridos. “É muito diferente de ser MC do Sul. A galera olha para a gente e diz: cadê o dinheiro? Nos comprando ao Sudeste. Mas não se compara o salário das pessoas que trabalham no sul para as que trabalham no nordeste. É diferente”, falou. “As avenidas em São Paulo são gigantes e cheias de casas de show. Em uma noite um MC faz umas sete apresentações. Em cada uma eles passam cerca de 30 minutos”, disse Case. “Eles rentabilizam muito, bem mais que os MC’s daqui. Dá pra conseguir um dinheiro? Dá. Mas eu conheço pessoas que ganham mais dinheiro trabalhando normal que vários MC’s que estão cantando”, complementou.

MC Case. Foto: Arquivo Pessoal / Reprodução
De acordo com GG, o brega-funk é visto pela ótica econômica como um patrimônio cultural e não como uma economia criativa para tornar as comunidades carentes independentes. A economia criativa é movida pela criatividade e inovação como matéria-prima, por conseguinte, o processo de criação é tão importante quanto o produto final que forma uma cadeia produtiva baseada no conhecimento, capaz de produzir riqueza, gerar empregos e distribuir renda. Ainda de acordo com GG, “o brega-funk é, sim, uma economia criativa, diferentemente do que o Governo diz, muito forte que pode tirar muitas pessoas da pobreza e da criminalidade”, pontuou.
As letras mais sexualizadas são a justificativa oficial para o movimento não ser encaixado como economia e o que está por trás disso é um preconceito de raça e de classe. “Se o problema para o Estado fosse as letras das músicas elas não seriam tão barradas, negadas. O que realmente caberia era um debate mais amplo com os artistas e comunidades, mas o Governo quer, de fato, proibir a música e a ascensão das classes mais baixas e negras. O Governo não quer discutir educação sexual, ele quer culpar o brega-funk”, declarou GG.
Porém, através do brega-funk, a (ex) dupla de MC’s, Case e Afala, tiveram várias conquistas. “Dei entrada numa casa própria; em 2017 Afala e eu conseguimos estruturar a nossa própria produtora (Playzicka Records) e os estúdios de música e de fotografia e, também, gerenciar as nossas carreiras”, disse Case. “A gente conseguiu construir tudo isso, com muita dificuldade, economizando, buscando recursos... mas nada de ‘fiquei’ rico. Eu não conheço nenhum artista, MC, que ficou rico com o brega-funk, mas conheço muitos donos de casas de show e outros agregados que ficaram”, acrescentou.

MC Case e Afala, respectivamente. Foto: 3 Marias Estúdio Fotográfico / Reprodução
Para o produtor musical Wallcon Regis, conhecido como WR, existe um mal gerenciamento de carreira por grande parte dos MC’s. “Se os MC’s cuidassem da parte dos beats, eles tinham ganhado uma boa grana. Têm artistas que com menos visualizações na internet conseguem ‘estourar’ e viver bem porque eles cuidam de toda a parte digital e dos direitos autorais dos compositores”, falou WR. “Aqueles que estão preocupados em ganhar dinheiro vão trabalhar com quem arrecada o CADE*, e não com quem pega a música, a coloca na internet e ‘seja o que Deus quiser’”, incluiu.

Produtor Musical WR. Foto: Facebook/Reprodução
Wallcon é formado em produção fonográfica e possui sua própria produtora, a WR Produções. Ele faz os beats (a batida usada para fazer o ritmo das músicas) de muitos cantores famosos de brega-funk como os MC’s Sheldon e Japão e, também, de outros ritmos como o do cantor de sertanejo universitário, Mano Walter. Para WR, um bom profissional e ótimos equipamentos são essenciais para o crescimento de um MC e o valor por ele cobrado é justo (em média, mil reais por cada beat), visto que especializou-se para tal função. “Eu uso uma placa boa, tenho microfones bons, possuo um par de caixas de som de 7.500 reais, utilizo a melhor marca de computadores. Além disso, sou formado em produção fonográfica. eu me especializei para exercer a função. Tudo isso agrega no valor, sabe?”, contou. “Tem músicas minhas com 15 milhões de visualizações, então, quanto mais músicas o cantor explode, aí, maior o preço. Já produzi muitos cantores famosos, isso é mais um motivo para o valor ser maior. Eu levo muito a sério o meu trabalho. Sempre procuro deixar o estúdio legal, o ambiente bom”, completou WR.
“Eu aprendi a ser artista durante esses 10 anos. Sei do que o público espera e o que deve ser feito. Então, tem que ter profissionalismo e dedicação, independente se a remuneração é muita ou pouca. Se fizer o trabalho certinho, se souber administrar o dinheiro, dá pra ir longe. O importante é seguir os sonhos”.
MC Case
